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UM DEDO DE PROSA - ZINE PARALELAS
POR MARCELO MARAT
Abrindo parênteses nesse bate-papo costumeiro sobre roteiros de quadrinhos, quero falar sobre o lançamento de PARALELAS, fanzine de WATSON PORTELA. Não é novidade quadrinista profissional editar fanzines. Emir Ribeiro, Bené Nascimento, Deodato Borges (Pai & Filho), entre outros, já fizeram isso. Mas esse lançamento, em particular, me fez pensar: não seria bom ver mais quadrinistas se voltando para os zines? Em princípio, isso até pareceria um retrocesso. Fanzine é coisa de amador e não dá dinheiro. Pelo menos eu não sei de ninguém que consiga se manter com isso. No máximo dá para pagar os custos de edição e distribuição, o que já é raro. Porém, há algo em fanzines que pode valer mais do que dinheiro: LIBERDADE. Num fanzine, o quadrinista pode fazer o que quiser. Quer fazer uma HQ do Tarzan? Pode fazer! Desde que o editor esteja bancando o seu trabalho, ninguém tem nada a ver com isso. Podem criticar ou até elogiar, que não fará a menor diferença. Um fanzineiro pode fazer histórias com 500 páginas, que editor comercial nenhum publicaria, por considerar economicamente inviável. Como quadrinista, ele pode trabalhar aquele personagem querido, que estava guardado no fundo da gaveta, não importando gênero ou estilo.
Vi recentemente um site dedicado a Edmundo Rodrigues, quase por acaso. Nossa, eu fiquei realmente emocionado! Eu lia histórias desenhadas por ele quando era garoto, histórias de fantasmas que me deixavam impressionado não só pelo clima gótico, mas também pelo traço elegante, neo-clássico, do artista. Claro que na época eu não prestava atenção nisso, a noção estética de uma criança é mais intuitiva do que técnica. Seria interessante ver outros sites dedicados à quadrinistas nacionais, mas se essa ainda é uma tecnologia cara, o fanzine pode ser um caminho para o profissional reeditar toda a sua obra a um custo baixíssimo, contribuindo para se manter um pouco da memória cultural deste país.
Não há nada errado em querer ganhar dinheiro. O problema é que, para o quadrinista brasileiro, isso se transformou numa noção distorcida de profissionalismo. De repente, fazer quadrinho nacional virou sinônimo de fracasso, coisa de quem nunca consegue "chegar lá". Imaginem, então, o que dizer dos fanzines. E isso é uma grande bobagem, pois é nos fanzines que está a liberdade, a "trincheira de resistência" citada por Júlio Shimamoto. Essa é uma resistência cultural, não econômica, mas pode vir a ser. Imaginem se todos os quadrinistas que estão aí parados à espera da boa vontade das editoras para voltarem a publicar, resolvessem fazer seus próprios trabalhos. Algo parecido com o que o Lobão fez no "A Vida É Doce". Ganhariam os leitores que gostam de bons quadrinhos e ganhariam os próprios artistas, que poderiam cuidar de sua obra com liberdade total e o respeito que eles sabem que merecem. Emir Ribeiro percebeu isso e relançou quase tudo o que produziu dessa maneira.
E o dinheiro para bancar esse romantismo todo? Pode parecer exagero, mas dinheiro se encontra em qualquer lugar. Basta fazer uma coisinha chata chamada trabalho. Seja na publicidade ou numa barraquinha de cachorro quente, o dinheiro aparece sempre.Às vezes, aparece até com os quadrinhos. Mas a questão aqui é cultural e, com um pouco de planejamento, dá para manter qualquer projeto. Seria bom se o Watson reeditasse em zines toda a sua obra, inclusive os trabalhos não autorais que fez nos anos 80. Seria bom que outros quadrinistas profissionais fizessem o mesmo, ainda que deixassem as edições por conta de terceiros, gente que tivesse mias disposição e paciência para isso.
Para finalizar, faço menção a dois nomes do quadrinho nacional que merecem todo o respeito: HENRIQUE MAGALHÃES e EDGARD GUIMARÃES. Os dois vêm fazendo há anos um trabalho sério em prol do quadrinho nacional. São pessoas que respeitam os quadrinhos como arte e meio de comunicação e buscam - bancando do próprio bolso - manter essa produção ativa através da divulgação, edição e distribuição do trabalho de dezenas de quadrinistas. São homens da Renascença, felizmente vivendo no nosso presente e cuja importância cultural talvez só seja percebida daqui a algumas décadas.
MARCELO MARAT é roteirista e editor independente. Este texto foi originalmente publicado em seu zine "O Inquilino #06", de junho de 2001.
Contato: TRAVESSA LOMAS VALENTINAS, 1839, MARCO, BELÉM, PA, 66087-440, BRASIL.
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