O Inquilino, a razão desse zine...

UM DEDO DE PROSA - O INQUILINO

Por Marcelo Marat

    Ouvi o desenhista paraense Bené Nascimento dizer uma vez que fazer fanzine não é bom, pois vicia. Claro, ele disse isso depois de editar seu próprio zine, o "Crash!", e estava se referindo ao risco que o desenhista corre em ficar preso ao formato de edições independentes, nunca se tornando um profissional. Bem, eu não sei se os zines são causa ou conseqüência da permanência de uma pessoa no amadorismo, mas o fato é que estou no meio alternativo há dez anos. Acho que passei por todas as etapas, seja em xerox ou off-set, poesia, desenho, texto, humor, ideologia, apologia, colagem... enfim, tudo que consideramos tão original e, de certa forma, já se tornou conservador em termos de fanzine. Perdi a conta das edições que fiz, sozinho ou com amigos, mas posso citar algumas, como "Ecos do Nada", "Ponto de Fuga", "Boca do Mundo", "Lírios no Lixo", "Fractal", "Clube", "Garra Cinzenta" e, mais recentemente, "Número Único", de agosto de 1999. De todas as coisas que fiz, me fixei na parte de roteiros para quadrinhos. Mas em todo esse tempo, nunca consegui me tornar um profissional. No máximo, cheguei a "free lancer". Talvez porque não haja mercado para o que eu faço ou talvez Bené tivesse razão. E olha que eu até editei um zine em homenagem a ele também...

    Seja como for, retomo meu ofício com esse novo fanzine. Resolvi chamá-lo "O Inquilino" e parafraseando o poema de Vinícius, espero que ele se torne regular enquanto dure. O nome eu tirei do melhor livro de terror que já li até hoje, cujo título original é "Le Locataire Chimerique". Foi escrito pelo cartunista francês Roland Topor, sobre quem, infelizmente, tenho pouquíssimas informações. Sei que o livro virou filme nas mãos de Roman Polanski, um de meus diretores preferidos. Junto com  "O Bebê de Rosemary" e "Repulsa ao Sexo", forma a tríade macabra de obras-primas do diretor polonês, terror consistente, de qualidade e realmente assustador, e nao as bobagens soporíferas sobre adolescentes perseguidos por maniacos mascarados. Sei também que Topor trabalhou na versão de Wener Herzog para "Nosferatu"(Nosferatu, Phantom of the Nacht), com Klaus Kinski, Isabelle Adjani e Bruno Ganz. E isso é tudo o que sei. Portanto, se alguém tiver mais informações sobre Topor, me escreva!!

    E do que fala o livro? Sobre o medo básico do ser humano racional e inteligente: a loucura. Entre os muitos temores que perseguem a todos nós, meros mortais, estão a morte, a perda, a miséria, a impotência, a violência, enfim. Mas esses são todos medos concretos, palpáveis e relativamente fáceis de explicar. Se os compreendermos e sabermos lidar com eles, já não assustam tanto. Mas a loucura está além de nossa compreensão, simplesmente porque não temos controle sobre ele. Eu poderia estar escrevendo este texto movido pela loucura e não me dar conta disso. Você poderia estar lendo pelo mesmo motivo. Quem disse que o louco sabe que está louco?

    Mas só o tema não bastaria para tornar o livro de Topor interessante.É o talento literário do autor que torna o Inquilino mais do que um simples filme de terror. Com uma linguagem elaborada, valorizada pela excelente tradução de A. B. Pinheiro de Lemos, Topor cria uma narrativa tensa, que envolve o leitor desde o primeiro parágrafo. Se você não conhece o livro e tiver a sorte de lê-lo, eu aconselho a ler um capítulo por dia, para saborear ao máximo a obra, como vinho raro. Você se sentirá tentado a ler direto, de um só fôlego, mas não o faça. Mantenha o suspense. Sofre junto com o personagem principal. Não vai se arrepender.

    Não vou entrar em detalhes sobre a obra, para não estragar as surpresas para quem ainda não leu o livro, mas posso citar dois recursos muito interessantes utilizados por Topor: um deles é o surrealismo, que tem forte ligação com a loucura na obra de artistas como Van Gogh, Dali, Lewis Carrol e Murilo Rubião, entre tantos outros. Costumo pensar que o surrealismo é o lado sublime da loucura. O momento que aprendemos a trabalhar com ela a nosso favor. Outro aspecto da obra é a noção de eterno retorno, uma espécie de maldição que nos assombra, espreitando com a possibilidade de que a vida se repita "ad infinitum", com suas dores e prazeres. Algo como o suplício de Sísifo, o qual, no inferno, tinha que levar uma pedra ao alto de uma montanha e, lá chegando, via a pedra rolar para baixo, tanto que recomeçar a tarefa. A lei do eterno retorno lembra também a serpente Orobouros, que devora a própria cauda num circulo sem fim... mas essa é outra história.

    LE LOCATAIRE CHIMERIQUE também serviu de inspiração para uma HQ de Dylan Dog, publicada no Brasil em "Fumetti", edição especial sobre os quadrinhos italianos. Infelizmente, nós brasileiros ficamos órfãos das ótimas histórias desse personagem. O que não é novidade, pois neste país, o que é bom dura pouco (quando dura) e o que é boçal prospera.

    Tomando para si o título brasileiro, O INQUILINO nasce não como um fanzine de terror, mas de quadrinhos adultos, urbanos, com forte destaque para o lado psicológico dos personagens. A ligação com o título, além do gosto pessoal pelo livro, vem da idéia em si. Eu alugo o espaço oferecido pelo fanzine para exercitar o que não posso fazer profissionalmente. E aí voltamos à citação de Bené/Joe Bennett, como a serpente Orobouros. A resposta para a questão do primeiro parágrafo, por enquanto, não importa. O importante é que o zine cumpre seu papel básico, de servir como veículo de expressão e espaço alternativo. Como sempre foi, para mim, nos últimos dez anos.

MARCELO MARAT é roteirista e editor independente. Este texto foi extraído do zine "O Inquilino #1", de janeiro de 2001. Para contatos: Travessa Lomas Valentinas, 1839, Marco, Belém, PA, 66087-440, Brasil.