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UM DEDO DE PROSA - COPIAR OU INVENTAR?
POR MARCELO MARAT
Pode-se ensinar ou aprender a fazer quadrinhos? Creio que toda pessoa possuidora de um temperamento artístico, com mínima habilidade para desenhar, pode chegar - se este for o seu desejo, através de esforço e persistência - a compreender, assimilar, aprender e interpretar as técnicas de realização gráfica das histórias em quadrinhos, em qualquer um de seus diversos gêneros.
Para o desenhista iniciante, deve-se copiar ou "inventar"? É comum a preocupação com esta questão, como se copiar fotos ou o traço de outros autores limitasse a capacidade criativa, ou como se o ato de "inventar" toda a história lhe desse mais mérito, aproximando-o do gênio criativo. Na verdade, mesmo que pareça o contrário, nada é realmente "inventado". Tudo o que o desenhista imagina, seja ele profissional ou não, parte de uma referencia. Pode ser uma lembrança, uma recordação inconsciente, uma experiência de vida, um aprendizado, a referencia sempre está lá, mesmo no trabalho mais desconexo e surreal. Tudo não passa de uma combinação criada a partir de conhecimentos reais arquivados na memória.
No caso dos desenhistas principiante, deve-se sempre usar referencias, porque é muito mais fácil ver uma bicicleta e desenhá-la em vez de tentar "inventá-la". Copiar e analisar é o alimento indispensável de que necessita a memória visual do desenhista. Com o tempo, sua habilidade já plenamente exercida e desenvolvida lhe permitirá criar sobre essas referencias, dentro de um estilo próprio, podendo até mesmo subverter tudo o que aprendeu. Ele pode transformar a bicicleta, por exemplo, num gato de pêlos verdes. Tudo dependerá de seu talento e criatividade.
Uma dica importante para o desenvolvimento do traço é manter um arquivo de referencias. Para isso, não é necessário comprar livros caros. Recortar fotos e ilustrações de pessoas, animais, veículos, prédios, vestimentas típicas, lugares, enfim, toda e qualquer informação visual que facilite a criação artística ajuda na criação desse arquivo. Colecionado no correr dos anos, devidamente catalogado e arquivado, esse material sempre poderá ser útil.
Com relação ao material de desenho, não adianta comprar lápis importado, tintas caras, papel especial, pincéis de pêlo de marta, borrachas refinadas, pois o que vale não é o material de desenho e sim a mão que o utiliza. O bom desenhista (de nível profissional) é capaz de fazer maravilhar com caneta esferográfica comum, desenhar paisagens de sonho com lápis escolar mal apontado sobre papel ordinário, do tipo que se uma para embrulhar pacotes. Claro, o bom material é sempre útil, mas é o talento que faz a diferença.
MARCELO MARAT é editor indenpendente e roteirista. Este texto foi originalmente publicado em seu zine "O Inquilino #2", de fevereiro de 2001.
Contato: Travessa Lomas Valentinas, 1839, Marco, Belém, PA, 66087-440, Brasil.