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UM DEDO DE PROSA - 3 PONTOS PRINCIPAIS DE UMA HQ
POR MARCELO MARAT
Creio que há três pontos principais a serem trabalhados num roteiro de HQ: o ambiente, os personagens e o texto. Pretendo desenvolver algumas idéias sobre cada um desses pontos, em separado, ao longo dos próximos números. Por enquanto, vou discorrer sobre AMBIENTE.
De forma simples, o ambiente é o cenário em que se passa a HQ. Numa história a dois, esse cenário não surge da mente criativa do desenhista, mas é imaginado, a princípio, pelo roteirista, que deve descrevê-lo em detalhes sem ser prolixo. Esse detalhes devem ser significativos para a história. Não adianta entediar o desenhista descrevendo os requintados contornos de uma escrivaninha. Deve-se descrever o que for relevante e deixar o desenhista livre para contemplar os detalhes com o que ele quiser. Se ele quiser desenhar a tal escrivaninha, ótimo! O importante é não quebrar a coerência da trama, pois o ambiente faz parte dessa comunicação visual com o leitor, levando-o a dar crédito ao que ele lê.
Observando as HQs desse zine, pode-se dizer que o ambiente é trabalhado de forma coerente, contribuindo para um maior entendimento da trama? Há falhas, inconsistências ou desperdícios ma narrativa quadro a quadro? Quais símbolos que se repetem, tanto no clímax de uma quanto no de outra? Essa repetição pode ser vista, de fato, como um símbolo ou como um clichê?
A resposta à última questão já fica por conta da interpretação de cada leitor. Afinal, uma HQ não precisa ser uma obra fechada, com começo, meio e fim e mensagens acabadas. Isso seria subestimar a capacidade crítica do leitor, colocando-o num contexto passivo. Como em qualquer forma de arte, a obra pode estar em aberto e livre para interpretações variadas. O leitor é, assim, co-autor da HQ, interagindo com ela através de sua imaginação e espírito crítico.
Não penso no ambiente como decoração para o fundo do quadrinho, apenas para não deixá-lo vazio como em antigas tiras de Jim das Selvas. O ambiente é parte da minha expressão intelectual, tão importante quanto todos os outros signos visuais, nesse esforço de contar bem uma história.
MARCELO MARAT é roteirista e editor independente. Este texto foi originalmente publicado em seu zine "O Inquilino #7", de agosto de 2001.
Contato: TRAVESSA LOMAS VALENTINAS, 1839, MARCO, BELÉM, PA, 66087-440, BRASIL.